cetamina
Cetamina tem outras grafias? O nome oficial e a diferença para a escetamina

A cetamina, a ketamina e a quetamina são a mesma molécula, escrita de três formas diferentes. Essa resposta cabe em uma frase, mas a pergunta chega ao consultório com uma frequência que mostra o quanto a confusão atrapalha. Alguns pacientes me contam que leram sobre "ketamina" em um site, "quetamina" em outro e "cetamina" na bula, e chegaram a imaginar que se tratava de três medicamentos, talvez de três gerações de uma mesma ideia.
Não se trata. O que existe é um problema de grafia, e atrás dele há uma pergunta mais interessante: por que a mesma palavra aparece de jeitos tão distintos em português? Neste texto explico de onde vem cada versão, qual é a oficial, onde de fato existe uma diferença química que importa (ela não está onde a maioria procura) e o que isso muda na hora de conversar com um médico sobre tratamento.
Por que existem três grafias para a mesma molécula
Tudo começa no inglês. O nome original da substância é ketamine, e o seu início com K vem da estrutura química, uma cetona ligada a uma amina. Quando a molécula chegou ao mundo de língua portuguesa, ela encontrou dois caminhos possíveis. O primeiro foi manter a grafia estrangeira, sem adaptar nada, o que deu origem à ketamina com K, uma forma muito digitada nas buscas porque é igual à das publicações científicas em inglês. O segundo foi adaptar o som ao português, e aqui surgiram as duas variações que causam a confusão.
A primeira adaptação respeita a origem química do nome: em português, o prefixo que vem de cetona se escreve com C, como em cetona, cetose e cetogênica. Seguindo essa regra, chega-se a cetamina. A segunda adaptação respeita só o som: em português o som de K antes de E ou I costuma ser escrito com QU, como em quilo ou quiosque, e isso produz quetamina. As duas são tentativas legítimas de aportuguesar uma palavra estrangeira, e as duas circulam, mas só uma delas foi oficializada.
A grafia oficial no Brasil é cetamina. Ela é a forma adotada pela Denominação Comum Brasileira, a lista que a Anvisa mantém para padronizar o nome dos fármacos em bulas, receitas e registros. É por isso que o rótulo do medicamento, a prescrição e a documentação clínica trazem cetamina, e é essa a grafia que uso nos textos do Instituto Anchor. Ketamina e quetamina continuam sendo termos que as pessoas digitam no buscador, e fazem parte da conversa de quem procura informação, mas não aparecem na receita.
O uso popular da palavra costuma assustar mais do que informar. Parte do que circula na internet sob esses nomes mistura a substância usada em medicina com relatos de uso fora de qualquer contexto de saúde, e a mistura de referências alimenta muito medo e muita desinformação. A palavra, sozinha, não diz se o uso é médico ou não. O que diferencia um cenário do outro é indicação, dose, via de administração e supervisão, e esse ponto é tão importante que mereceu um texto próprio sobre os cuidados do protocolo.
De onde vem a cetamina e por que ela chegou à psiquiatria
A cetamina foi sintetizada em 1962, nos laboratórios da Parke-Davis, pelo químico Calvin Stevens, e aprovada nos Estados Unidos como anestésico em 1970. Durante décadas, foi um medicamento do centro cirúrgico, valorizado por manter a respiração e a circulação do paciente mais estáveis do que outros anestésicos da época. Esse histórico anestésico explica por que, até hoje, a cetamina é manejada com mais naturalidade por anestesiologistas, e por que a presença desse profissional faz diferença na infusão psiquiátrica, tema que detalhei em outro texto sobre o papel do anestesista na infusão.
A mudança de rumo veio com a pesquisa em depressão. Em 2000, um grupo da Universidade de Yale, liderado por Robert Berman, publicou na revista Biological Psychiatry um estudo pequeno em que pacientes com depressão receberam doses baixas de cetamina por via intravenosa e apresentaram melhora de sintomas em poucas horas. Em 2006, Carlos Zarate e colaboradores, do Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, repetiram a observação em pacientes que não haviam respondido a vários antidepressivos, em um ensaio controlado publicado no Archives of General Psychiatry. Os dois trabalhos podem ser localizados na base PubMed, o de Berman, e na mesma base, o de Zarate.
Esses estudos eram pequenos e precisam ser lidos com essa ressalva, mas abriram uma linha de investigação que cresceu muito. Hoje há um corpo substancial de pesquisa sobre o uso da cetamina em depressão resistente, e a diferença de velocidade em relação aos antidepressivos tradicionais é um dos pontos que a comunidade científica discute com mais atenção. Como a cetamina age nesse quadro é assunto do texto sobre o mecanismo da cetamina na depressão, e não vou repetir aqui.
A diferença que realmente existe: cetamina e escetamina
Se existe uma confusão de nomes que merece cuidado, ela está um passo adiante, na palavra escetamina. Aqui a diferença é química, e não de grafia. A molécula da cetamina tem duas formas espelhadas, como a mão direita e a esquerda, chamadas de enantiômeros: o enantiômero S e o enantiômero R. A cetamina usada por via intravenosa é uma mistura das duas formas, o que os farmacologistas chamam de mistura racêmica. A escetamina é só o enantiômero S, isolado e purificado.
Essa separação tem uma consequência prática. O enantiômero S tem maior afinidade pelo receptor NMDA, o ponto de partida do efeito antidepressivo, o que permite doses menores para uma ação semelhante em laboratório. Foi essa forma isolada que a indústria desenvolveu como medicamento antidepressivo na versão de spray nasal, comercializada sob o nome Spravato, aprovada pela agência americana FDA em março de 2019 (bula da FDA) para depressão resistente ao tratamento. O ensaio clínico de Popova e colaboradores, publicado no American Journal of Psychiatry em 2019, está entre os trabalhos que sustentaram esse registro.
Aqui cabe uma nova pegadinha de grafia: o mesmo problema de C e K reaparece. Escetamina é a forma oficial em português, esketamina é a versão que circula em buscas, e Spravato é o nome comercial. Mais uma vez, são palavras diferentes para a mesma molécula. O que muda de verdade, entre cetamina e escetamina, é a composição, a via de administração (veia ou nariz), o contexto de uso e o acesso. Esse comparativo tem um texto dedicado, sobre esketamina nasal e cetamina intravenosa, e outro mais voltado à via de administração, sobre escetamina intranasal e cetamina intravenosa.
O que muda, e o que não muda, na conversa com o médico
Para quem está avaliando tratamento, a primeira coisa que o nome não revela é a indicação. Cetamina, seja qual for a grafia usada no buscador, é um medicamento sob controle especial no Brasil, que exige prescrição e acompanhamento médico. Ninguém deveria decidir por conta própria usar qualquer substância com esse nome, e a pergunta "isso serve para mim?" só se responde com avaliação psiquiátrica individualizada, que considera diagnóstico, histórico de tratamentos, outros medicamentos em uso e condições clínicas associadas.
A segunda coisa é que o nome não diz quem conduz, onde e com qual monitoramento. Esses detalhes são o que define a segurança do procedimento. Em um ambiente clínico adequado, a infusão é feita com avaliação prévia, medida de pressão arterial e frequência cardíaca, oximetria e a presença de médico habilitado a manejar o que aparecer durante a sessão. Se você encontrar uma oferta de "tratamento com ketamina" que não deixa claro quem conduz, onde e com que monitoramento, a dúvida legítima é essa, não a grafia.
A terceira coisa é que a palavra não prevê o resultado. A depressão resistente tem causas e respostas diferentes de pessoa para pessoa, e a resposta à cetamina também varia. Há quem melhore de forma marcada, quem tenha melhora parcial e quem não responda, e uma conversa honesta sobre tratamento começa por admitir essa variação. O ponto de partida é entender quando o psiquiatra considera esse caminho, tema do texto sobre quando o tratamento intervencionista é indicado.
Como é a abordagem no Instituto Anchor
No Instituto Anchor, o tratamento usa cetamina por via intravenosa, em infusão realizada em ambiente clínico controlado. Antes de qualquer sessão há uma avaliação psiquiátrica, que decide se a infusão faz sentido para aquele quadro e se há alguma condição que a contraindique. Durante a infusão, a pessoa é acompanhada por anestesiologista, com monitoramento contínuo de sinais vitais, e o plano segue com reavaliação ao longo de todo o protocolo. Para quem quer saber como isso se passa na prática, descrevi o passo a passo em como é a sessão de infusão.
Isso não significa que a via intravenosa seja a melhor para todo mundo, e sim que ela é a que se encaixa no modelo de cuidado que o Instituto adota, com supervisão anestésica. Nenhuma decisão de tratamento sai de um texto de internet, nem deste, e o objetivo aqui é apenas que o nome da substância deixe de ser um obstáculo para uma conversa clara.
Quem chega ao consultório já sabendo que cetamina, ketamina e quetamina são a mesma coisa costuma poupar tempo de explicação e dedicar a consulta ao que realmente importa, que é a história clínica. Se o texto servir para isso, já cumpriu bem o seu papel.
Perguntas frequentes sobre as grafias da cetamina
Cetamina e ketamina são a mesma substância?
Sim. Cetamina é a grafia oficial em português, adotada pela Denominação Comum Brasileira, e ketamina é a forma original em inglês, mantida por parte do público e dos buscadores. Representam a mesma molécula, com a mesma ação no organismo.
Quetamina é um medicamento diferente?
Não. Quetamina é só uma adaptação de pronúncia da mesma palavra, e não corresponde a um medicamento distinto. Receitas e bulas usam cetamina.
Cetamina e escetamina são a mesma coisa?
Não. A escetamina, também escrita esketamina, é um dos dois enantiômeros que compõem a cetamina, isolado e produzido para uso em spray nasal. Têm composição, via de administração e acesso diferentes, e a escolha entre elas depende de avaliação médica.
Posso usar cetamina por conta própria?
Não. A cetamina é um medicamento de controle especial, com prescrição e acompanhamento médico, e o tratamento só faz sentido depois de avaliação psiquiátrica individualizada. Usar a substância sem indicação e sem monitoramento envolve riscos reais.
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos neste artigo, busque um profissional de saúde mental.
Dr. João Victor — CRM-MG 71304 | RQE 59605