infusao de cetamina
Como é a sessão de infusão de cetamina

Como é a sessão de infusão de cetamina
Quando alguém chega ao consultório com uma indicação de infusão de cetamina nas mãos, ou ainda avaliando se faz sentido, a pergunta que mais escuto não é sobre eficácia. É sobre o desconhecido. As pessoas querem saber o que vão sentir, quanto tempo dura, quem fica na sala, se vão perder o controle. Essa ansiedade é legítima, e eu prefiro respondê-la com descrição em vez de promessa.
Escrevo este texto para reduzir o medo do que você não conhece, não para vender uma experiência. Não vou dizer que a sessão é confortável, porque seria desonesto prometer conforto a quem nunca passou por isso. O que posso fazer é descrever, com o máximo de fidelidade, como o processo acontece de verdade dentro de um ambiente médico preparado, com as pessoas certas ao seu lado e os equipamentos certos ligados. A maior parte do medo vem da ausência de informação, e isso eu consigo corrigir aqui.
Vale uma ressalva antes de qualquer coisa. A infusão de cetamina não é um tratamento de prateleira nem uma decisão que se toma sozinho. Ela entra em cena para casos selecionados, geralmente quadros que não responderam de forma satisfatória a tratamentos convencionais, e sempre depois de uma avaliação médica que confirma que faz sentido para o seu caso específico. Nada do que descrevo aqui substitui essa avaliação.
O que acontece antes da sessão
Antes de marcar a primeira infusão existe uma etapa que costuma ser invisível para quem só pensa no dia da sessão, e que para mim é a mais importante. É a triagem clínica. Levantamos seu histórico médico e psiquiátrico, revisamos as medicações em uso e procuramos ativamente por contraindicações. Isso não é burocracia. A cetamina tende a elevar a pressão arterial, então hipertensão mal controlada e algumas doenças cardiovasculares instáveis precisam ser investigadas e, às vezes, são motivo para não seguir adiante. Histórico de psicose ou de transtorno bipolar em fase de mania também pede cautela redobrada, porque a substância pode interagir mal com esses quadros. Uso ativo de álcool ou de outras substâncias entra na mesma conversa. Tudo isso é avaliado caso a caso, e prefiro adiar ou recusar uma indicação a forçar um tratamento que não é seguro para você.
Nos dias que antecedem a primeira sessão, dependendo do seu caso e do protocolo, pode haver orientação de jejum. Em muitos protocolos pede-se evitar alimentos sólidos por algumas horas e líquidos por um intervalo menor antes da infusão. Isso reduz o risco de náusea e de outras complicações enquanto você está sob efeito da medicação. As instruções exatas de jejum, e se ele se aplica ao seu caso, sempre vêm da equipe que vai acompanhar você, nunca de uma regra genérica da internet. No dia, você não dirige. Combine antes quem vai levar e quem vai buscar, porque você sairá da clínica sob efeito residual e não pode assumir o volante.
O que acontece durante a infusão
Quando você chega para a sessão, conversamos. Reviso como você está se sentindo, confirmo que nada mudou no seu quadro desde a triagem e explico de novo cada passo do que vai acontecer. Essa conversa não é protocolo vazio, é o momento de ajustar expectativas e de você fazer as perguntas que ficaram.

A infusão acontece com você acomodado, sob monitorização contínua de sinais vitais, com a equipe presente do início ao fim.
A medicação entra pela veia. Um acesso venoso é puncionado, em geral no braço ou na mão, e a cetamina é administrada de forma lenta e controlada ao longo da sessão. A infusão costuma durar em torno de quarenta a cinquenta minutos, embora o tempo total dentro da clínica, contando preparo e recuperação, fique mais próximo de duas horas. Durante todo esse intervalo você não fica sozinho. A monitorização de sinais vitais permanece ligada o tempo inteiro. Há eletrodos acompanhando o ritmo cardíaco, um aparelho medindo a pressão arterial em intervalos e um oxímetro no dedo verificando a oxigenação do sangue. Se algum desses parâmetros sai do esperado, a infusão pode ser ajustada ou interrompida na hora. É exatamente para isso que o monitor existe.
Quem fica na sala importa tanto quanto os equipamentos. No nosso protocolo, a infusão acontece com a presença de médico anestesista responsável pela administração e pela segurança hemodinâmica, e com acompanhamento psiquiátrico, porque a experiência tem uma dimensão mental que precisa ser conduzida por quem entende dela. Você é perguntado ao longo da sessão sobre o que está sentindo, e isso orienta as decisões da equipe em tempo real.
Aqui entra a parte que mais gera medo, e sobre a qual prefiro ser direto. A cetamina pode provocar efeitos dissociativos transitórios. Muitas pessoas relatam uma sensação de distanciamento do próprio corpo, alteração na percepção do tempo, do espaço e dos sons, às vezes a impressão de estar flutuando ou de que o ambiente ficou estranho. Pode haver tontura, leve náusea ou uma elevação passageira da pressão. Não vou romantizar isso chamando de viagem nem vou minimizar dizendo que é nada. É uma experiência incomum, e para algumas pessoas é desconfortável enquanto dura. O ponto que sustenta a segurança é a palavra transitório. Esses efeitos acompanham a presença da medicação no organismo e tendem a se dissipar conforme ela é metabolizada, com a equipe monitorando você do começo ao fim. Nada do que você vai sentir é desconhecido para quem está na sala.
O que acontece depois
Terminada a infusão, você não vai embora. Permanece em observação na clínica por um período, em geral de trinta minutos a uma hora, às vezes um pouco mais, dependendo de como seu corpo respondeu. Durante essa recuperação os sinais vitais continuam sendo verificados e os efeitos dissociativos vão cedendo. É comum sair da sessão se sentindo cansado, um pouco lento ou ainda com a percepção levemente alterada, e isso é esperado.
Você retorna para casa acompanhado, no carro de outra pessoa. Pelo resto do dia, a orientação é descansar, não dirigir, não operar nada que exija atenção plena e não tomar decisões importantes. O efeito residual passa, mas merece respeito no dia da sessão.
Sobre o número de sessões, aqui também escolho não inventar uma fórmula. Os protocolos mais estudados costumam trabalhar com uma série de infusões distribuídas ao longo de algumas semanas, mas a quantidade exata para o seu caso é uma decisão clínica, definida individualmente a partir da sua resposta e do seu quadro. Falamos em resposta clínica e em remissão de sintomas, não em cura, e acompanhamos de perto para entender como você está reagindo ao longo do caminho. Se quiser entender melhor o mecanismo por trás disso, escrevi sobre como a cetamina age na depressão em outro texto, e sobre os cuidados de segurança que estruturam o protocolo. Para quem chegou aqui ainda tentando nomear o próprio quadro, talvez ajude ler sobre o que é a depressão refratária e suas linhas de tratamento, ou conhecer o panorama completo de condições avaliadas na página de tratamentos.
O que eu gostaria que ficasse, no fim, é que a segurança da infusão de cetamina não está na ausência de efeitos, e sim na estrutura que existe para acompanhar cada um deles. O ambiente monitorado, a equipe presente, a triagem honesta antes de qualquer agulha. Saber o que esperar não elimina o frio na barriga, mas tira do medo o que ele tem de pior, que é a imaginação preenchendo o vazio da informação.
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.
Se você já tem indicação ou está avaliando o protocolo e quer entender se a infusão de cetamina faz sentido para o seu caso, o caminho começa por uma avaliação médica. Agende uma conversa com a nossa equipe para que possamos olhar o seu histórico com a atenção que ele merece.
Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.