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Cetamina é segura? Os cuidados do protocolo médico

Cetamina é segura? Os cuidados do protocolo médico
Essa é, provavelmente, a primeira pergunta que passa pela cabeça de quem ouve falar em infusão de cetamina pela primeira vez. E é uma pergunta legítima. Quem chega até aqui geralmente já tentou vários caminhos, já leu coisas contraditórias na internet e tem todo o direito de querer entender o que está colocando no próprio corpo antes de decidir qualquer coisa.
Vou ser honesto desde o início, porque acho que é assim que essa conversa precisa começar. Nenhuma substância com efeito real no cérebro é "inofensiva", e seria desonesto da minha parte dizer que a cetamina não tem efeitos. Ela tem. A segurança de que falamos no contexto médico não nasce da ideia de que a substância seja leve ou neutra. Ela nasce de tudo que cerca a aplicação: a avaliação que vem antes, as contraindicações que respeitamos, o ambiente em que a infusão acontece e a equipe que acompanha cada minuto. É essa diferença que separa um procedimento médico de algo perigoso.
Então a resposta curta para "a cetamina é segura?" é: depende inteiramente do contexto. Aplicada por indicação médica, em paciente avaliado, em ambiente monitorado e com equipe preparada, ela tem um perfil de segurança bem estabelecido na literatura. Fora disso, a história é completamente diferente, e vou explicar por quê.
O que acontece no corpo durante a infusão
Quando a cetamina é administrada em doses subanestésicas, que são bem menores do que as usadas para anestesia cirúrgica, o corpo reage de formas que já conhecemos e que esperamos. Os efeitos mais comuns descritos na literatura clínica são sonolência, tontura, visão embaçada, náusea e sintomas dissociativos, aquela sensação de estar um pouco distante de si mesmo ou do ambiente ao redor. Em séries clínicas com centenas de infusões, esses foram justamente os eventos mais frequentes, e a proporção de aplicações que precisaram ser interrompidas por causa deles foi pequena, segundo revisões publicadas no American Journal of Psychiatry.
A dissociação costuma assustar quem lê sobre ela sem contexto. Na prática supervisionada, é um efeito transitório, esperado e que passa pouco depois do fim da aplicação. Não é um sinal de que algo deu errado. É parte previsível da experiência, e o fato de a equipe estar presente o tempo todo existe exatamente para que o paciente atravesse esse momento com segurança e acolhimento.
Há também um efeito que justifica boa parte do cuidado do protocolo. A cetamina tem ação simpaticomimética, o que significa que ela pode elevar de forma transitória a frequência cardíaca e a pressão arterial durante a infusão e por algum tempo depois. Estudos mostram que uma parcela relevante dos pacientes apresenta elevação pressórica durante o procedimento, e parte deles chega a precisar de medicação para controle pontual da pressão. Na maioria dos casos esses valores voltam ao normal logo após o término, sem consequências clínicas duradouras. Mas é precisamente por causa dessa variação que ninguém deveria receber cetamina sem monitorização. Esse é o ponto central de todo este texto.
As contraindicações existem e são respeitadas
Aqui entra a parte que talvez seja a mais importante de todas, e a que mais separa um procedimento responsável de um risco real. A cetamina não é para todo mundo, e a avaliação médica prévia serve justamente para descobrir, antes de qualquer aplicação, se aquele paciente específico pode recebê-la com segurança.
Existem condições em que uma elevação de pressão representa risco alto demais. A literatura lista contraindicações que precisam ser ativamente investigadas, como hipertensão não controlada, aneurismas, malformações vasculares, história de hemorragia cerebral, arritmias, angina instável e doença cardiovascular complexa, além de gravidez e amamentação e quadros de uso ativo de substâncias. Análises específicas sobre segurança cardiovascular reforçam que comorbidades metabólicas e cardíacas exigem medidas adicionais de mitigação de risco e, em alguns casos, indicam que o tratamento não deve ser feito.
Não dá para saber nada disso pela internet, por um formulário rápido ou por uma conversa apressada. É por isso que, no Instituto Anchor, a infusão nunca é o primeiro passo. O primeiro passo é sempre a avaliação. O psiquiatra precisa entender o histórico do paciente, os tratamentos já tentados, as condições clínicas associadas e os medicamentos em uso antes de sequer cogitar a indicação. Quando digo que a avaliação prévia é o que garante a segurança, não é uma frase de efeito. É literalmente o mecanismo pelo qual identificamos quem pode e quem não pode receber o tratamento.
O ambiente monitorado faz a diferença
Mesmo no paciente avaliado e elegível, a segurança continua dependendo de onde e como a infusão acontece. As diretrizes internacionais são bastante claras a respeito. O ambiente precisa ter condições de monitorar funções cardiovasculares e respiratórias, incluindo pressão arterial, eletrocardiograma e saturação de oxigênio, e ao menos um profissional no local deve ter treinamento avançado em suporte de vida, segundo consensos de especialistas publicados no American Journal of Psychiatry.

A monitorização contínua de sinais vitais é o que sustenta a segurança da infusão, do início ao fim.
No nosso caso, isso se traduz em uma equipe completa. O Dr. Lucas conduz a infusão, e contamos com a presença do Dr. Rodrigo, anestesista, justamente porque parte do que monitoramos durante o procedimento são variáveis que um anestesiologista domina com profundidade, como pressão, frequência cardíaca e nível de sedação. Os sinais vitais são acompanhados antes, durante e depois. Se a pressão sobe além do esperado, há quem perceba e quem saiba agir. Se a náusea aparece, há quem trate. O paciente não fica sozinho em nenhum momento.
Vale entender que essa lógica de observação não é exclusividade nossa. A versão em spray nasal da molécula, aprovada para depressão resistente, só pode ser administrada em locais credenciados e exige observação do paciente por pelo menos duas horas após cada aplicação, justamente pelos riscos de sedação, dissociação e elevação de pressão, conforme a bula oficial aprovada pelo FDA. Ou seja, a exigência de ambiente monitorado não é um capricho de uma clínica. É padrão reconhecido pela própria regulação sanitária. Se você quiser entender como esse acompanhamento funciona na prática durante uma aplicação, escrevi sobre isso em detalhe em como é a sessão de infusão de cetamina.
Por que "cetamina faz mal" depende de quem usa, como e onde
Muito do medo em torno da palavra cetamina vem de uma confusão compreensível, mas que precisa ser desfeita. O uso recreativo da substância, fora de qualquer controle médico, tem riscos sérios e reais, e eu não vou minimizá-los para vender um tratamento.
O uso recreativo crônico está associado a lesões graves da bexiga e das vias urinárias, dependência e prejuízos cognitivos. Estudos que acompanharam usuários frequentes encontraram que a maioria relatou problemas no trato urinário, com casos extremos de retração irreversível da bexiga. Esses danos surgem de doses repetidas, descontroladas, sem avaliação, sem espaçamento adequado e sem nenhum acompanhamento. É um cenário que não tem absolutamente nada a ver com um protocolo médico.
A diferença entre os dois mundos não está na molécula. Está em tudo o que existe ao redor dela. No uso médico, há indicação por avaliação, dose controlada, frequência definida pelo médico, ambiente monitorado e equipe presente. No uso recreativo, não há nada disso. Quando alguém pergunta se a cetamina faz mal, a resposta honesta é que o contexto decide. A mesma substância pode ser ferramenta clínica criteriosa ou fonte de dano grave, e o que muda é justamente o que aqui chamamos de protocolo. Se você quer entender o raciocínio clínico por trás de quando a cetamina é considerada, e por que ela age de forma diferente dos antidepressivos comuns, vale a leitura sobre como a cetamina age na depressão e a comparação entre esketamina e cetamina intravenosa.
O que esperar de uma conversa honesta
Se há uma ideia que eu gostaria que ficasse deste texto, é esta: segurança em medicina raramente é a ausência de efeitos. É a presença de cuidado. A cetamina tem efeitos, e nós os conhecemos, esperamos e gerenciamos. Ela tem contraindicações, e nós as investigamos antes. Ela exige monitorização, e nós a oferecemos. Nada disso é promessa de resultado, e este texto não é sobre resultado. É sobre o respeito a um processo que coloca a segurança do paciente acima de qualquer outra coisa.
A indicação da infusão de cetamina é sempre uma decisão médica tomada caso a caso, após avaliação cuidadosa, e nunca um produto que se escolhe de prateleira. Se você está considerando esse caminho, o melhor que você pode fazer é começar pelo começo, que é a avaliação. É nela que descobrimos, juntos, se faz sentido para o seu caso. Você encontra as condições avaliadas e o desenho do protocolo na página de tratamentos.
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.
Se quiser dar esse primeiro passo com segurança, agende uma avaliação médica com a nossa equipe no Instituto Anchor. A conversa começa por entender o seu caso, não por prescrever nada.
Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.