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Por que um anestesista acompanha a infusão de cetamina

Dr. João VictorCRM-MG 713048 min de leitura
Por que um anestesista acompanha a infusão de cetamina

Por que um anestesista acompanha a infusão de cetamina

A cetamina chegou à psiquiatria vinda da sala de cirurgia. Foi como anestésico que ela entrou na medicina, nos anos 1960, e é assim que continua sendo usada em centros cirúrgicos e em atendimento de urgência no mundo inteiro. A indicação psiquiátrica é mais recente e usa doses bem menores, mas a molécula é a mesma, e o que ela faz com a pressão arterial, com a frequência cardíaca e com o nível de consciência continua valendo.

Essa é a resposta curta para uma pergunta que ouço com frequência no consultório: por que uma sessão de infusão para depressão precisa de um anestesiologista na sala, se não se trata de uma cirurgia. A resposta longa tem a ver com o que acontece durante aquelas duas horas, com quem está treinado para reconhecer e conduzir o que pode acontecer, e com uma pergunta que todo paciente tem o direito de fazer antes de escolher onde tratar.

A cetamina não deixou de ser um anestésico

Na psiquiatria, a cetamina, também grafada ketamina, é administrada em dose subanestésica. O objetivo não é produzir anestesia, e a pessoa permanece acordada, respirando sozinha e capaz de responder durante toda a sessão. Ainda assim, trabalha-se com uma substância que tem perfil de anestésico e que atua sobre o sistema nervoso central de forma marcante, inclusive na percepção.

A infusão é feita por via intravenosa, lentamente, ao longo de um período que costuma girar em torno de quarenta minutos, com observação adicional depois. Durante esse tempo é comum que a pressão arterial e a frequência cardíaca subam de forma transitória. É esperado, está descrito na literatura e costuma se resolver sozinho. A questão não é se isso vai acontecer, e sim quem está na sala sabendo distinguir a variação esperada daquela que pede uma conduta imediata.

Também é comum a experiência dissociativa, uma sensação de distanciamento do corpo ou do ambiente, que costuma durar enquanto a infusão acontece e se dissipa depois. Descrevo esse conjunto de efeitos com mais detalhe no texto sobre efeitos colaterais da cetamina e o que se monitora, e o passo a passo da sessão está em como é a sessão de infusão.

O que muda com um anestesiologista na sala

O anestesiologista é o médico treinado justamente para administrar substâncias que alteram consciência e parâmetros vitais e para conduzir o que aparece nesse intervalo. É a especialidade cuja rotina inteira se organiza em torno de vigilância contínua, de via aérea e de resposta rápida a variação hemodinâmica. A Sociedade Americana de Anestesiologistas descreve a sedação como um contínuo, em que uma pessoa pode transitar de um nível para o seguinte sem aviso prévio, e por isso recomenda que quem administra esteja apto a resgatar o paciente de um nível mais profundo do que o pretendido.

Esse conceito é a razão prática de tudo o que descrevo aqui. A dose psiquiátrica é pensada para manter a pessoa em um nível leve, mas sensibilidade individual existe, e a única forma de trabalhar com margem é ter na sala quem reconheça e conduza a transição, com o material e a competência para isso. No Brasil, a formação e o registro dessa especialidade seguem as normas do Conselho Federal de Medicina e a chancela da Sociedade Brasileira de Anestesiologia.

Essa presença não significa, porém, o que às vezes se infere dela. Ela não transforma a infusão em procedimento arriscado, nem sugere que algo dê errado com frequência. Significa apenas que a estrutura é dimensionada para o cenário improvável, e não para o cenário provável. É a mesma lógica de qualquer procedimento conduzido com rigor.

O que é monitorado, na prática

A monitorização durante a infusão acompanha alguns parâmetros de forma contínua ou em intervalos curtos. A pressão arterial é aferida repetidamente, porque a elevação transitória é o achado mais frequente. A frequência cardíaca e o traçado do eletrocardiograma acompanham o ritmo. A oximetria de pulso mede a saturação de oxigênio no sangue. E há a avaliação clínica, que não depende de aparelho: nível de consciência, padrão respiratório, náusea, agitação, conforto.

Com esses dados, a velocidade de infusão pode ser ajustada durante a própria sessão. Essa possibilidade de titular no meio do caminho é uma vantagem concreta da via intravenosa, e depende de alguém que saiba ler o conjunto e decidir. Um monitor ligado sem médico treinado interpretando o que ele mostra é um equipamento, não um protocolo.

O acompanhamento não termina quando a bomba de infusão para. Existe um período de observação até que a pessoa volte ao estado habitual, com orientação de não dirigir e de ter acompanhante no trajeto de volta. As condições clínicas prévias entram na conta desde a avaliação inicial, que é o momento de mapear pressão alta não controlada, condições cardíacas, medicações em uso e histórico de reações a anestésicos. Esse conjunto de cuidados é o que descrevo no texto sobre segurança e cuidados do protocolo.

Duas especialidades, duas perguntas diferentes

Há uma divisão de trabalho que ajuda a entender por que uma sessão bem conduzida envolve mais de um médico. O psiquiatra responde pela indicação e pelo acompanhamento do quadro: se a pessoa tem indicação, o que já foi tentado, o que se espera observar, como o tratamento conversa com as medicações que ela já usa e o que fazer com o resultado de cada sessão. O anestesiologista responde pela condução da infusão e pela vigilância durante a sessão.

São perguntas diferentes, e nenhuma das duas fica bem respondida por acúmulo. A quantidade de sessões e o espaçamento entre elas, por exemplo, são decisões clínicas construídas ao longo do acompanhamento, assunto que trato em quantas sessões de cetamina são necessárias.

Paciente recostada em poltrona clínica durante uma sessão de infusão intravenosa, com acesso venoso no antebraço e monitor de sinais vitais ao lado, em ambiente de madeira clara e luz suave.

Sessão de infusão em ambiente monitorado, com acompanhamento da equipe do início ao fim. Imagem ilustrativa.

No Instituto Anchor, em Uberlândia, a sessão de infusão é conduzida com anestesiologista e psiquiatra presentes durante todo o procedimento, em ambiente monitorado. A composição da equipe e os registros de cada profissional estão na página de equipe, e o panorama das condições que avaliamos está reunido na página de tratamentos.

O que perguntar antes de escolher onde fazer a infusão

Como o tratamento com cetamina em psiquiatria é conduzido fora da indicação original de bula, prática reconhecida quando há justificativa clínica e consentimento adequado, a estrutura que cerca a aplicação varia bastante de um serviço para outro. Isso torna algumas perguntas legítimas, e nenhum serviço sério se incomoda com elas.

Pergunte quem estará na sala durante a infusão e qual a especialidade de cada um. Pergunte qual monitorização é usada e por quanto tempo a observação se estende depois que a infusão termina. Pergunte como é feita a avaliação antes da primeira sessão e o que ela investiga. Pergunte o que acontece se a pressão subir ou se surgir desconforto no meio do caminho. E confira o registro dos profissionais na busca de médicos do Conselho Federal de Medicina, que é pública e leva menos de um minuto.

Perguntas frequentes

A infusão de cetamina é uma anestesia?

Não. A dose usada em psiquiatria é subanestésica, bem menor que a dose cirúrgica, e a pessoa permanece acordada, respirando sozinha e capaz de responder durante a sessão. A presença do anestesiologista tem a ver com a natureza da substância e com a vigilância dos parâmetros vitais, não com a indução de anestesia.

Eu vou dormir durante a sessão?

Em geral não. O estado mais comum é de relaxamento profundo, com alteração da percepção e sensação de distanciamento, que costuma durar enquanto a infusão acontece. Cada pessoa descreve essa experiência de um jeito, e a equipe permanece presente e acessível durante todo o período.

Todo serviço que aplica cetamina tem anestesiologista?

Não necessariamente, e é por isso que a pergunta vale a pena. A composição da equipe varia entre os serviços. Perguntar quem estará na sala, qual a especialidade de cada profissional e qual monitorização é usada faz parte de uma escolha informada, tanto quanto perguntar sobre o tratamento em si.

Posso ir embora sozinho depois da sessão?

Não. A orientação padrão é não dirigir e não retomar atividades que exijam atenção plena no restante do dia, com acompanhante no trajeto de volta. Essa recomendação vale mesmo quando a pessoa se sente bem ao final do período de observação, porque parte dos efeitos pode persistir de forma sutil por algumas horas.

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.

Se você está avaliando o tratamento com infusão de cetamina, para si ou para alguém próximo, perguntar sobre a estrutura que cerca a sessão é tão importante quanto perguntar sobre a indicação. A equipe do Instituto Anchor está disponível para essa conversa.

Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304 | RQE 59605) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.