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Quantas sessões de cetamina são necessárias

Dr. João VictorCRM-MG 7130410 min de leitura
Quantas sessões de cetamina são necessárias

Quantas sessões de cetamina são necessárias

É uma das primeiras perguntas que ouço quando alguém se interessa pela infusão de cetamina. Quantas sessões eu vou precisar? A pessoa quer um número, e entendo perfeitamente por quê. Quem chega até aqui costuma já ter tentado muita coisa, está cansado de processos longos e quer saber, antes de começar, o tamanho do compromisso. O problema é que a resposta honesta não cabe num número único, e prefiro explicar o raciocínio a inventar uma certeza que a medicina não tem.

O que existe não é um número fixo, é uma lógica clínica. Há uma fase inicial mais concentrada, chamada de indução, que segue um intervalo razoavelmente bem descrito na literatura. Depois dela, o caminho se abre conforme a resposta de cada pessoa. Para alguns, a indução é o suficiente por um bom tempo. Para outros, faz sentido pensar em uma fase de manutenção, mais espaçada. E há quem responda de forma que pede revisão de toda a estratégia.

Quero usar este texto para descrever essa lógica de ponta a ponta. Como funciona uma série de indução, por que o número de sessões varia tanto de uma pessoa para outra, o que é a fase de manutenção, o que a ciência de fato observa sobre resposta ao tratamento, e como decidimos isso, caso a caso, dentro do protocolo. Não é uma tabela de pacotes. É um mapa para você entender o que está por trás da pergunta.

A pergunta sobre o número de sessões

Por trás da pergunta há quase sempre uma expectativa compreensível: a de tratar a cetamina como se fosse um remédio com posologia de bula, em que se sabe de antemão quantas doses e por quanto tempo. A infusão não funciona bem assim. Ela é uma intervenção conduzida em ambiente clínico, ajustada à resposta que vai aparecendo ao longo do processo, e não um esquema fechado decidido no primeiro dia.

Isso muda a forma de conversar sobre o assunto. Em vez de prometer um número, o que faço na avaliação é descrever a estrutura do tratamento e os pontos em que paramos para reavaliar. A pessoa entra sabendo que existe uma fase inicial com um formato definido, e que as decisões seguintes dependem de como o corpo e o quadro respondem àquela primeira fase. Saber disso desde o começo evita frustração e evita também a sensação de estar num processo sem fim ou sem critério.

Há ainda uma razão técnica para não cravar um número. A indicação da cetamina, a quantidade de infusões e o eventual seguimento são definição médica individual, feita por psiquiatra, considerando gravidade, histórico e objetivo do tratamento. Um texto na internet pode explicar a lógica geral. Quem define o seu caso é a avaliação clínica, não a página que você está lendo.

Como funciona uma série de indução

A fase de indução é o ponto de partida da maioria dos protocolos de infusão de cetamina para depressão de difícil controle. A ideia é concentrar um conjunto de infusões em um período relativamente curto, para dar ao tratamento a chance de produzir e sustentar uma resposta. Não se trata de uma infusão isolada, e sim de uma série conduzida com intervalo planejado.

O formato mais descrito na literatura de infusão de cetamina por via intravenosa para depressão resistente costuma envolver uma série de várias infusões distribuídas ao longo de cerca de duas a três semanas, com sessões aplicadas em dias alternados ou poucas vezes por semana. Esse intervalo não é arbitrário. Ele busca um equilíbrio entre repetir a exposição com frequência suficiente para construir resposta e respeitar o tempo do organismo entre uma sessão e outra. Esse é o esqueleto que aparece em boa parte dos estudos e protocolos clínicos, e é a referência a partir da qual se ajusta cada caso.

Durante essa fase, cada infusão acontece em ambiente clínico monitorado, com acompanhamento médico antes, durante e depois do procedimento. Se você quer entender em detalhe como é estar ali, da chegada à recuperação, escrevi um texto dedicado sobre como é a sessão de infusão de cetamina. O ponto que importa aqui é que a indução não é um evento único, é um processo curto e estruturado, e o número de infusões dentro dela já é, em si, uma decisão clínica e não um padrão imposto a todos.

Avaliar a resposta ao longo do caminho

A série de indução não corre no automático. Entre as sessões, e ao final delas, avaliamos como a pessoa está respondendo. Isso inclui a leitura clínica do humor, do sono, do apetite, da energia, do pensamento, e muitas vezes o apoio de escalas de sintomas aplicadas de forma padronizada. Essa avaliação contínua é o que diferencia um tratamento conduzido de uma sequência de procedimentos.

A resposta tende a se desenhar dentro dessa janela de indução. Algumas pessoas percebem mudança já nas primeiras infusões, outras vão construindo melhora ao longo da série. Há também quem responda pouco, e nesse caso a decisão clínica é justamente não insistir cegamente, e sim revisar a estratégia. Reconhecer cedo que uma via não está respondendo faz parte da boa condução, tanto quanto sustentar o que está funcionando.

Por que o número varia de pessoa para pessoa

Aqui está o coração da pergunta. O número de sessões varia porque as pessoas que chegam à infusão não são iguais entre si, nem nos quadros que apresentam, nem na forma como respondem. Três fatores pesam mais nessa variação, e vale descrever cada um.

O primeiro é a gravidade e a história do quadro. Uma depressão de longa data, com vários tratamentos anteriores sem resposta, tende a pedir uma condução diferente de um quadro mais recente. O segundo é a resposta individual ao tratamento. Duas pessoas com diagnósticos parecidos podem responder em ritmos diferentes, e isso só se sabe acompanhando, não prevendo. O terceiro é o objetivo terapêutico combinado. Buscar atravessar um período crítico é diferente de buscar sustentar uma melhora ao longo de meses, e cada objetivo molda a estrutura do tratamento.

Existe ainda a variável da durabilidade. Um ponto bem documentado na pesquisa com cetamina é que a resposta, quando aparece, costuma ser rápida, mas nem sempre se mantém por conta própria depois que a série inicial termina. Para parte das pessoas, o efeito de uma única série tende a diminuir com o passar das semanas. É justamente essa característica que faz a conversa sobre manutenção entrar em cena, e ela merece uma seção própria.

O que é a fase de manutenção

Quando a indução produz resposta, a pergunta seguinte deixa de ser "quantas sessões para começar" e passa a ser "como sustentar o que melhorou". É aí que aparece a fase de manutenção. Ela consiste em infusões mais espaçadas, aplicadas depois da série inicial, com o objetivo de prolongar o benefício obtido e reduzir o risco de o quadro recair.

O espaçamento da manutenção não tem fórmula única. Para algumas pessoas, faz sentido um intervalo de semanas entre as sessões; para outras, intervalos maiores. A lógica é encontrar o espaçamento mínimo necessário para sustentar a melhora, evitando tanto o excesso quanto a interrupção precoce. Essa calibragem é feita pelo psiquiatra ao longo do acompanhamento, observando quanto tempo o benefício de cada infusão se sustenta antes de a pessoa começar a perder terreno.

Faço questão de uma ressalva honesta. Nem todo mundo entra em manutenção, e manutenção não é sinônimo de tratamento para sempre. Em muitos casos, a cetamina é parte de um plano mais amplo, que inclui medicação, psicoterapia e cuidado com o estilo de vida, e o seguimento existe para dar tempo a que essas outras frentes se consolidem. A decisão de manter, espaçar ou encerrar é clínica, revisada periodicamente, e nunca um pacote vendido de antemão.

O que a ciência observa sobre resposta

Vale situar o que a literatura de fato mostra, sem inflar e sem prometer. A pesquisa com cetamina intravenosa para depressão resistente cresceu bastante na última década, e dois achados se repetem com consistência. O primeiro é que a resposta antidepressiva tende a ser rápida, às vezes em horas a poucos dias, em contraste com as semanas que os antidepressivos clássicos costumam levar. O segundo é o que já mencionei: essa resposta, quando ocorre, frequentemente não se sustenta sozinha por longos períodos após uma série única, o que dá sentido clínico às estratégias de repetição e manutenção.

Esse padrão aparece em estudos controlados e em revisões da literatura psiquiátrica sobre o tema, e foi parte do racional que levou agências regulatórias a aprovarem a esketamina, um derivado da cetamina de uso intranasal, para depressão resistente associada a um antidepressivo oral. A aprovação da esketamina pelo FDA em 2019, em ambiente assistido, ajudou a consolidar a leitura de que a modulação dessa via, a glutamatérgica, é uma frente legítima para quadros que não responderam às abordagens habituais. Se você quer entender melhor de onde vem essa indicação e quando ela passa a ser considerada, vale a leitura sobre depressão refratária e seus tratamentos.

O que a ciência não oferece é garantia. A cetamina pode induzir resposta clínica significativa em parte das pessoas tratadas, e isso é diferente de funcionar para todas, ou de curar. Há quem responda pouco, há quem precise de mais seguimento, há contraindicações e há critérios de segurança que precisam ser respeitados em cada infusão. Tratei desses cuidados em detalhe no texto sobre se a cetamina é segura e o que envolve o protocolo. Honestidade sobre os limites faz parte de tratar bem.

Como o Instituto Anchor define isso

Sala preparada para infusão em ambiente clínico monitorado, no Instituto Anchor, em Uberlândia.

A infusão acontece em ambiente clínico monitorado, com acompanhamento médico em todas as etapas.

No Instituto Anchor, em Uberlândia, o número de sessões nunca é definido por um pacote fixo decidido antes de conhecer a pessoa. A definição começa na avaliação psiquiátrica, que confirma se há indicação para a infusão de cetamina, considera a gravidade do quadro, o histórico de tratamentos anteriores e o objetivo terapêutico combinado. Só a partir daí se desenha a fase de indução e se conversa sobre o que vem depois dela.

A condução segue a lógica que descrevi ao longo do texto. Uma fase de indução estruturada, com infusões em ambiente clínico monitorado e acompanhamento médico em cada etapa, seguida de uma avaliação cuidadosa da resposta. Se a resposta aparece e há motivo clínico, conversamos sobre uma fase de manutenção espaçada, calibrada ao caso. Se a resposta não vem como esperado, revisamos a estratégia em vez de insistir no automático. Cada decisão é individual, revisada ao longo do processo, e tomada com a pessoa entendendo o porquê de cada passo.

Tratamos a segurança e o acompanhamento como condição do tratamento, não como diferencial. Por isso, a pergunta sobre quantas sessões só recebe resposta de verdade dentro da avaliação, com o quadro real diante dos olhos, e não por uma estimativa genérica feita à distância.

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. A indicação da infusão de cetamina e o número de sessões são definição médica individual. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.

No Instituto Anchor, em Uberlândia, oferecemos avaliação psiquiátrica especializada para quadros depressivos de difícil controle, conduzida por equipe médica. Se você quer entender se a infusão de cetamina faz sentido no seu caso e o que o tratamento envolveria, agende uma avaliação e converse com quem pode mapear isso com você.

Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304 | RQE 59605) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.