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O que é a cetamina e para que serve na medicina

Dr. João VictorCRM-MG 713049 min de leitura
O que é a cetamina e para que serve na medicina

O que é a cetamina e para que serve na medicina

A cetamina é um medicamento desenvolvido na década de 1960 e usado há mais de meio século na medicina, sobretudo como anestésico. Ela atua de um jeito diferente da maioria dos anestésicos, bloqueando um receptor cerebral chamado NMDA, e por causa desse perfil particular se tornou uma ferramenta confiável em centros cirúrgicos, em emergências e em ambientes onde a segurança da via respiratória do paciente precisa ser preservada. Esse é o ponto de partida para entender tudo o que veio depois.

Nos últimos anos, porém, a cetamina passou a interessar a um campo que não é o da anestesia. A psiquiatria começou a estudar, e em parte a usar, doses muito menores dessa mesma substância para quadros depressivos que não respondem aos tratamentos habituais. É um uso médico, feito em ambiente controlado, com indicação e supervisão, e que não tem nada a ver com o uso recreativo ou ilícito que às vezes aparece nas notícias. Quero usar este texto para separar esses mundos com clareza e explicar, sem promessa nenhuma, o que a cetamina é, para que ela serve hoje e por que ela entrou na conversa sobre depressão.

Atendo, com alguma frequência, pessoas que chegam ao consultório tendo lido sobre o assunto e com mais dúvidas do que respostas. Algumas confundem o anestésico com algo perigoso por natureza. Outras chegaram a uma expectativa exagerada, como se fosse uma solução mágica. A verdade fica num lugar mais sóbrio, e é esse lugar que vou descrever aqui.

O que é a cetamina

A cetamina é uma substância sintética, classificada como anestésico dissociativo. Esse nome técnico descreve bem o efeito que ela produz em doses anestésicas: a pessoa entra num estado em que a percepção da dor se separa, em parte, da consciência do ambiente. Foi sintetizada em 1962 e introduzida no uso clínico na mesma década, ganhando espaço rápido por uma razão prática. Diferente de muitos anestésicos, ela tende a preservar os reflexos das vias aéreas e a estabilidade cardiovascular, o que a torna útil em situações em que outras opções seriam mais arriscadas.

Você talvez encontre a substância grafada como ketamina ou quetamina em alguns textos, em bulas antigas ou em material traduzido. São variações do mesmo nome. A grafia oficial em português, segundo a Denominação Comum Brasileira, é cetamina, com C, e é a que uso ao longo deste artigo. Saber disso ajuda a não se perder na hora de pesquisar, porque as três grafias apontam para o mesmo medicamento.

Do ponto de vista do mecanismo, o que torna a cetamina interessante é a forma como ela conversa com o cérebro. Ela age principalmente sobre o sistema glutamatérgico, uma via de comunicação entre neurônios diferente daquela em que atuam os antidepressivos clássicos, que mexem sobretudo com serotonina e noradrenalina. Esse detalhe parece técnico demais, mas é justamente ele que abriu a porta para o uso psiquiátrico, e voltarei a ele mais adiante.

De anestésico a tratamento psiquiátrico

A história de como um anestésico virou objeto de estudo na psiquiatria é, em parte, uma história de observação atenta. Ao longo de décadas usando cetamina em ambiente cirúrgico, profissionais notaram que algumas pessoas relatavam mudanças de humor após receberem a substância. Esse tipo de observação clínica é frequentemente o início de uma investigação séria, e foi o que aconteceu aqui.

A partir do fim dos anos 1990 e ao longo dos anos 2000, pesquisadores passaram a estudar de forma estruturada o efeito de doses baixas de cetamina sobre sintomas depressivos. O que chamou atenção foi a velocidade. Os antidepressivos tradicionais costumam levar semanas para mostrar efeito, enquanto os estudos com cetamina descreviam, em parte das pessoas, uma redução de sintomas em horas ou poucos dias. Esse padrão de resposta rápida é incomum em psiquiatria e ajudou a sustentar o interesse científico crescente na molécula. Para quem quer entender o detalhe desse mecanismo, escrevi um texto específico sobre como a cetamina age na depressão.

Vale ser honesto sobre o ritmo da ciência aqui. Estamos falando de uma área de pesquisa ainda em desenvolvimento, com perguntas em aberto sobre duração de efeito, número ideal de aplicações e perfil de quem mais se beneficia. O entusiasmo é compreensível, mas a postura responsável é tratar a cetamina como uma possibilidade que segue sendo estudada e refinada, não como um capítulo encerrado.

Para que a cetamina é usada na medicina hoje

Convém organizar os usos, porque eles convivem e às vezes se confundem na cabeça de quem pesquisa. O uso mais antigo e mais consolidado continua sendo o anestésico. Em centros cirúrgicos, em pronto-socorro, em procedimentos de curta duração e em contextos pediátricos, a cetamina é uma ferramenta com décadas de estrada e perfil de segurança bem conhecido quando administrada por profissional habilitado. Ela também é empregada no manejo de certos quadros de dor, incluindo dor aguda e algumas situações de dor crônica de difícil controle.

O uso psiquiátrico é o capítulo mais recente. Aqui é preciso fazer uma distinção que confunde muita gente. Existe a esketamina, que é uma forma derivada da cetamina, de aplicação intranasal, aprovada pela agência reguladora americana, o FDA, em 2019, para depressão resistente a tratamento, sempre associada a um antidepressivo oral e administrada em ambiente assistido. E existe a cetamina por via intravenosa, usada em ambiente clínico monitorado, que é a abordagem da qual o Instituto Anchor se ocupa. As duas têm parentesco, mas diferem em via de administração, protocolo e contexto de uso.

A diferença entre uso médico e uso recreativo precisa ficar explícita, porque é onde mora a maior parte da confusão. O que descrevo aqui é uso médico: dose calculada, indicação feita por psiquiatra após avaliação, administração em ambiente preparado e com monitoramento. O uso fora desse contexto, sem indicação e sem supervisão, não é tema deste texto e não é algo que eu recomende ou descreva como tratamento. São coisas tão diferentes quanto o álcool de uma cirurgia e o álcool de uma festa, ainda que a molécula tenha o mesmo nome.

Por que a cetamina interessa ao tratamento da depressão

Para entender o interesse da psiquiatria, é útil lembrar de uma limitação real dos tratamentos clássicos. Uma parcela importante das pessoas com depressão não obtém resposta satisfatória mesmo após tentar mais de um antidepressivo bem conduzido. Esse quadro tem nome, depressão refratária ou resistente a tratamento, e é um problema clínico concreto, que vejo no consultório com regularidade. Se você quer entender melhor esse conceito, tratei dele em detalhe no artigo sobre o que é depressão refratária e como ela é tratada.

É exatamente para esse grupo que a cetamina desperta interesse. Por agir sobre uma via diferente, a glutamatérgica, ela oferece um mecanismo distinto do dos antidepressivos tradicionais. A hipótese mais estudada é a de que esse mecanismo favorece processos de neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de formar e reorganizar conexões entre neurônios, algo que tende a estar prejudicado em quadros depressivos. Esse é um campo de pesquisa fascinante do ponto de vista científico, e que detalho no texto sobre cetamina e neuroplasticidade.

Faço questão de uma ressalva firme. Falar de resposta clínica e de remissão aqui significa melhora significativa dos sintomas em parte das pessoas tratadas, não garantia de resultado para todas. A cetamina não cura a depressão, e quem promete cura está faltando com a verdade. O que existe é uma possibilidade terapêutica, avaliada caso a caso, dentro de um protocolo, que pode ajudar pessoas para quem os caminhos usuais não foram suficientes.

Como a cetamina é usada no Instituto Anchor

Ambiente clínico do Instituto Anchor, em Uberlândia, preparado para a infusão de cetamina sob monitoramento.

A infusão de cetamina no Instituto Anchor acontece em ambiente monitorado, com acompanhamento médico ao longo de todo o procedimento.

No Instituto Anchor, em Uberlândia, a infusão de cetamina intravenosa é conduzida dentro de um protocolo médico estruturado, e nunca como primeira resposta a qualquer tristeza ou desânimo. Ela só entra na conversa depois de uma avaliação psiquiátrica que confirme tratar-se de um quadro de difícil controle, com histórico que justifique considerar essa via. A indicação é sempre individual, feita por médico, e jamais decidida por um texto na internet.

O cuidado com o ambiente é parte do tratamento, não um detalhe acessório. A infusão acontece em ambiente clínico monitorado, com a presença de um médico anestesiologista responsável pela segurança durante o procedimento e com acompanhamento psiquiátrico ao longo do processo. Essa estrutura existe porque tratamos segurança clínica e supervisão como condição, não como diferencial de marketing. Para quem tem curiosidade sobre o passo a passo, descrevi como acontece uma sessão de infusão de cetamina e também reuni os cuidados de segurança no texto sobre se a cetamina é segura e o que o protocolo prevê. Você encontra o panorama dos quadros que avaliamos na página de tratamentos.

Perguntas frequentes sobre a cetamina

A cetamina é a mesma coisa que ketamina ou quetamina?

Sim. Cetamina, ketamina e quetamina são grafias diferentes da mesma substância. A forma oficial em português, segundo a Denominação Comum Brasileira, é cetamina, com C. As outras aparecem em material traduzido, em bulas antigas e em textos mais informais, mas todas se referem ao mesmo medicamento.

O uso da cetamina na psiquiatria é o mesmo que o uso na anestesia?

Não exatamente. É a mesma substância, mas as doses, o contexto e o objetivo são diferentes. Na anestesia, são usadas doses maiores para produzir sedação e analgesia em procedimentos. Na psiquiatria, fala-se em doses muito menores, com finalidade distinta, sempre dentro de um protocolo médico e em ambiente monitorado.

A cetamina substitui o antidepressivo?

Não é assim que se deve pensar. Quando indicada, a cetamina costuma fazer parte de um plano de tratamento mais amplo, conduzido por psiquiatra, e não de uma troca simples de um remédio por outro. A decisão sobre o papel de cada elemento do tratamento é individual e depende da avaliação clínica de cada pessoa.

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.

No Instituto Anchor, em Uberlândia, oferecemos avaliação psiquiátrica especializada para quadros depressivos de difícil controle, conduzida por equipe médica. Se você quer entender se a infusão de cetamina faz sentido no seu caso, ou apenas tirar dúvidas sobre o assunto, agende uma avaliação e converse com quem pode mapear isso com você, presencialmente ou, na etapa inicial, à distância.

Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304 | RQE 59605) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.