cetamina
Cetamina vicia? Dependência e uso médico monitorado

A cetamina é uma substância sob controle especial, e essa é a primeira coisa honesta a dizer sobre ela. Quem pergunta se ela vicia quase nunca está fazendo uma pergunta de curiosidade. Normalmente está diante de uma indicação de tratamento, leu alguma reportagem sobre uso recreativo e ficou com uma dúvida legítima que ninguém respondeu direito.
A resposta curta é que o potencial de abuso existe, está descrito e é real. A resposta útil é mais longa, porque ela depende de distinguir três coisas que o senso comum trata como uma só: o que a substância é capaz de fazer, o que acontece quando ela é usada fora de qualquer contexto médico, e o que acontece dentro de um protocolo com dose, intervalo e supervisão definidos.
Essas três coisas têm desfechos diferentes. Confundi-las produz dois erros opostos e igualmente ruins: o pânico que faz alguém recusar um tratamento que poderia ser avaliado, e a leveza de quem trata a cetamina como se fosse um suplemento. Nenhum dos dois ajuda a decidir.
O que "viciar" quer dizer, em termos clínicos
A palavra vício carrega muita coisa e descreve pouco. Na prática clínica se trabalha com conceitos mais estreitos, e eles não são sinônimos entre si.
Tolerância é quando a mesma dose passa a produzir menos efeito, e é um fenômeno farmacológico que acontece com várias classes de medicamento sem que exista qualquer quadro de dependência. Dependência física é a adaptação do organismo à presença da substância, de modo que a retirada abrupta produz sintomas. E o transtorno por uso de substâncias é um diagnóstico de comportamento: uso que escapa do controle da pessoa, que persiste apesar do prejuízo, que ocupa espaço crescente na vida e que vem acompanhado de desejo intenso de repetir.
É essa última categoria que interessa quando alguém pergunta se a cetamina vicia. E o que define o risco dela não é apenas a molécula. É a combinação entre a substância, a via de administração, a frequência, a dose, o acesso e as características de quem usa. A mesma substância ocupa posições muito diferentes nessa equação dependendo de como chega até a pessoa. Essa distinção entre perfil farmacológico e padrão de uso é a mesma que descrevo no texto sobre os mitos de que a cetamina seria um opioide.
O que se sabe sobre o potencial de abuso da cetamina
A cetamina, também grafada ketamina, tem propriedades que a tornam atrativa para uso recreativo. Ela altera a percepção e produz dissociação, uma sensação de distanciamento do corpo e do ambiente, e esse efeito é buscado deliberadamente fora da medicina. O Instituto Nacional de Abuso de Drogas dos Estados Unidos descreve o uso recreativo da cetamina, e o quadro que aparece nos casos de uso problemático é razoavelmente consistente na literatura.
Esse quadro tem um perfil característico. Envolve doses altas, administração muito frequente, muitas vezes diária, por via nasal ou injetável sem controle, mantida por meses ou anos. As consequências descritas nesse padrão de uso incluem comprometimento cognitivo, sobretudo de memória, e um quadro urológico próprio, com inflamação da bexiga e sintomas que podem se tornar persistentes. Existe também o desenvolvimento de tolerância, com escalada progressiva de dose, e a dificuldade de interromper por conta própria.
Nada disso é controverso e nada disso deve ser minimizado. É exatamente por causa desse potencial que a cetamina figura entre as substâncias sujeitas a controle especial no Brasil, na regulação que a Anvisa exerce sobre medicamentos controlados: a cetamina integra a Lista C1 (outras substâncias sujeitas a controle especial) da Portaria SVS/MS 344/1998. Ela não é vendida livremente, exige receita de controle especial, tem escrituração obrigatória e, no uso intravenoso, é administrada na própria unidade, sem ser dispensada ao paciente.
Há um segundo fato que costuma surpreender quem só ouviu falar do lado recreativo. A cetamina integra a lista de medicamentos essenciais da Organização Mundial da Saúde na condição de anestésico, porque em grande parte do mundo ela é o anestésico viável onde não há oxigênio, ventilador ou anestesiologista disponível. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e é por isso que ela nunca foi retirada do arsenal médico.
Por que o uso médico monitorado é um cenário diferente
A pergunta que importa, então, não é se a cetamina pode produzir um quadro de abuso. Pode. A pergunta é se o protocolo psiquiátrico reproduz as condições em que isso acontece. E ele é desenhado precisamente para não reproduzir.
Comece pela dose. A dose psiquiátrica é subanestésica, bem menor que a usada em cirurgia e muito distante das quantidades descritas no uso recreativo crônico. Depois, a frequência: o tratamento é um processo contínuo, com avaliação psiquiátrica, protocolo de 8 sessões, duas por semana, com psicoterapia integrada, e seguimento. Não há administração diária nem uso fora da clínica. Detalho essa estrutura em quantas sessões de cetamina são necessárias.
Há ainda o fator que raramente entra na conversa e que talvez seja o mais decisivo. No protocolo intravenoso, o paciente nunca tem posse da substância. Ela não é dispensada, não vai para casa, não fica num armário. É administrada por uma equipe, em ambiente monitorado, numa sessão com começo e fim, e a pessoa vai embora sem nada nas mãos. O acesso autoadministrado, que é a condição necessária para a escalada de dose e para o uso compulsivo, simplesmente não existe nesse formato. O passo a passo de como isso acontece está descrito em como é a sessão de infusão.
Isso não transforma o protocolo em algo sem risco, e não é o que estou afirmando. Efeitos durante e após a sessão existem, são conhecidos e são monitorados, e eu os descrevo em detalhe no texto sobre efeitos colaterais da cetamina. O que a estrutura do protocolo faz é reduzir de forma importante as variáveis associadas ao quadro de abuso, mantendo a substância sob indicação médica e avaliação individualizada.
O que a avaliação investiga antes de indicar
A diferença entre as duas situações descritas acima não se sustenta sozinha. Ela depende de um critério de indicação que funcione, e é aí que a avaliação inicial deixa de ser formalidade.
Histórico de uso de substâncias é parte obrigatória dessa conversa, e inclui álcool, substâncias ilícitas e medicamentos usados fora da prescrição. A pergunta não existe para excluir ninguém de antemão. Ela existe porque a resposta muda a conduta, muda o grau de acompanhamento e, em algumas situações, muda a recomendação. Entram também na avaliação as condições clínicas, as medicações em uso, a história psiquiátrica e o que já foi tentado antes. Esse conjunto de cuidados é o que descrevo no texto sobre segurança e cuidados do protocolo.
No Instituto Anchor, em Uberlândia, a indicação é construída em avaliação psiquiátrica antes de qualquer sessão, e a infusão é conduzida em ambiente monitorado, com equipe presente durante todo o procedimento. Os registros de cada profissional estão na página de equipe.

Sessão de infusão em ambiente monitorado, sem que a substância seja dispensada ao paciente. Imagem ilustrativa.
Quando o histórico de uso de substâncias pesa na decisão
Existe uma camada a mais nessa discussão, e ela costuma ficar de fora porque parece contraditória. A cetamina tem sido estudada justamente como ferramenta no tratamento de quadros de dependência, ainda em fase de pesquisa, como resume a revisão sistemática de Jones e colaboradores, publicada em 2018 na Frontiers in Psychiatry.
Ter um histórico de uso problemático de substâncias, portanto, não é automaticamente uma contraindicação. É um dado clínico de peso, que exige avaliação mais cuidadosa, critério mais estreito e acompanhamento mais próximo. Em algumas situações, pesa contra. Em outras, faz parte do próprio motivo pelo qual o tratamento está sendo considerado. Quem decide isso é o psiquiatra que avalia o caso, com a pessoa, e não uma regra geral imposta de fora.
O que não muda em nenhum cenário é o seguinte: a decisão não é do paciente sozinho, nem de um texto na internet. Ela se constrói numa avaliação que olha para a história inteira. Se você tem um histórico que considera relevante, o caminho é levar isso para a avaliação em vez de omitir, porque é esse dado que permite ao médico desenhar o acompanhamento certo.
Perguntas frequentes
Cetamina vicia?
A substância tem potencial de abuso documentado, e esse potencial se manifesta em um padrão específico: doses altas, uso muito frequente e autoadministrado, mantido por longos períodos sem supervisão. O protocolo psiquiátrico opera em dose subanestésica, com sessões espaçadas, administração feita por equipe e sem que o paciente tenha posse do medicamento. São cenários distintos, e é por isso que a resposta precisa de contexto em vez de um sim ou não.
Por que a cetamina é uma substância controlada se é usada como tratamento?
Porque as duas coisas não se excluem. Controle especial é o mecanismo que permite o uso médico de uma substância com potencial de abuso, estabelecendo quem pode prescrever, como se registra e como se dispensa. Vários medicamentos de uso corrente em psiquiatria e em anestesia estão sob o mesmo tipo de controle.
Quem já teve problema com álcool ou outras substâncias pode fazer o protocolo?
Não existe resposta única. O histórico é um dado clínico importante que o psiquiatra pondera na avaliação, junto com o quadro atual, as tentativas anteriores de tratamento e as condições de acompanhamento. Em parte dos casos a conduta é mais conservadora, em outros o tratamento segue com monitoramento adicional.
É possível criar apego ao efeito que a sessão produz?
É uma preocupação legítima e faz parte do que o acompanhamento observa. O protocolo tem 8 sessões definidas, com psicoterapia integrada e seguimento depois, e a reavaliação ao longo do caminho serve exatamente para acompanhar como a pessoa se relaciona com o tratamento, não apenas se os sintomas mudaram. Falar abertamente sobre isso com a equipe faz parte do processo, e não é motivo de constrangimento.
Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Em caso de dúvida, procure um profissional de saúde mental.
Se a dúvida sobre dependência é o que está travando a decisão de avaliar o tratamento, ela merece ser respondida por quem vai conduzir o caso, com a sua história na mesa. Perguntar sobre dose, intervalo, estrutura da sessão e critério de indicação é parte de uma escolha informada, e essas perguntas são bem-vindas na avaliação. A equipe do Instituto Anchor está disponível para essa conversa.
Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304 | RQE 59605) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.