Pular para conteúdo
Instituto Anchor

eletroconvulsoterapia

Eletroconvulsoterapia: efeitos colaterais e o que saber

Dr. João VictorCRM-MG 713049 min de leitura
Eletroconvulsoterapia: efeitos colaterais e o que saber

Eletroconvulsoterapia: efeitos colaterais e o que saber

No consultório, quando o assunto eletroconvulsoterapia aparece, a primeira pergunta quase nunca é sobre a eficácia. É sobre a memória. As pessoas querem saber se vão esquecer quem são, se vão perder pedaços da própria história, se os efeitos colaterais da ECT são o preço alto que os filmes antigos sugerem. Essa preocupação é legítima e merece uma resposta honesta, sem suavizar e sem assustar.

Este texto trata dos efeitos colaterais da eletroconvulsoterapia com o cuidado que o tema pede. O que existe de fato, o que a técnica moderna reduziu, o que costuma ser passageiro e o que pode durar mais tempo. A ideia não é recomendar nem desaconselhar o procedimento, que só se decide caso a caso em avaliação médica, e sim dar a quem pesquisa uma base clara para conversar com o próprio psiquiatra.

Vale começar por uma distinção. A ECT de 2026 é conduzida sob anestesia geral, com relaxante muscular e monitoramento contínuo, e tem pouca relação com a imagem que a cultura popular guardou. Isso não elimina os efeitos colaterais, mas muda bastante a natureza e a intensidade deles.

O efeito colateral mais discutido: memória e cognição

A cognição é o território onde os efeitos da ECT mais importam, e onde a informação de qualidade faz mais diferença. Existe um efeito real sobre a memória, e ele não deve ser minimizado. O que a pesquisa dos últimos anos ajudou a esclarecer é a magnitude e a duração desse efeito, que são bem diferentes do que a fama do tratamento sugere.

A confusão logo após a sessão

O efeito mais comum aparece nos minutos e nas horas seguintes à sessão. É um estado de desorientação e lentidão, parecido com o despertar de qualquer anestesia geral, que costuma passar no mesmo dia. Parte dessa confusão vem da própria anestesia, e não apenas do estímulo. Ela tende a ser mais perceptível no começo da série de aplicações e a se acomodar com o tempo.

A memória de eventos recentes e a memória autobiográfica

Há dois tipos de efeito sobre a memória que merecem nomes separados. O primeiro é a dificuldade de formar memórias novas durante o período de tratamento, chamada de memória anterógrada. O segundo é a dificuldade de recuperar lembranças de eventos próximos às sessões, a chamada memória autobiográfica retrógrada.

A boa notícia vem de uma revisão importante. Uma metanálise conduzida por Semkovska e McLoughlin, publicada em 2010 na revista Biological Psychiatry, reuniu dezenas de estudos e mostrou que a maioria das funções cognitivas se recupera nas semanas seguintes ao fim do tratamento, e que várias delas voltam a níveis iguais ou até melhores do que antes, à medida que o quadro depressivo melhora. O ponto que exige honestidade é a memória autobiográfica, que pode permanecer alterada por mais tempo em parte dos pacientes, com lacunas de eventos ao redor do período das sessões. A magnitude varia de pessoa para pessoa e depende muito da técnica empregada.

Os efeitos físicos, comuns e passageiros

Fora da esfera cognitiva, os efeitos colaterais da ECT costumam ser leves e de curta duração, e muitos deles se explicam pela anestesia e pela breve atividade muscular do procedimento. Dor de cabeça é o mais frequente, e em geral responde a analgésicos simples. Dores musculares e sensação de mandíbula tensa aparecem por causa do estímulo e do relaxante, e passam em algumas horas. Náusea no período pós-anestésico também é comum e transitória.

Há ainda os riscos associados à anestesia geral em si, que existem em qualquer procedimento anestésico e por isso exigem avaliação pré-operatória. É por essa razão que a ECT moderna acontece com anestesiologista presente e com monitoramento de oxigenação, frequência cardíaca e atividade cerebral do início ao fim. Nomear esses efeitos não é alarmismo. É a diferença entre um procedimento conduzido com seriedade, em que os riscos são conversados abertamente, e a versão caricata que sobrou no imaginário coletivo.

O que a técnica moderna mudou nos efeitos colaterais

A razão pela qual os efeitos cognitivos da ECT de hoje são menores do que os da ECT antiga está em dois avanços concretos. O primeiro é o formato do pulso elétrico. Os aparelhos atuais usam pulsos breves e, em muitos casos, ultrabreves, e a literatura associa pulsos mais estreitos a menor impacto sobre a memória. Sackeim e colaboradores descreveram, em estudos de estimulação cerebral, que o pulso ultrabreve de cerca de 0,3 milissegundo tende a preservar mais a cognição do que o pulso breve convencional, sob certas condições de posicionamento.

O segundo avanço é o posicionamento dos eletrodos. A colocação unilateral direita tende a poupar mais a função cognitiva do que posicionamentos mais antigos, ainda que a escolha entre técnicas dependa também da resposta clínica esperada. O médico pondera eficácia e perfil cognitivo ao definir a técnica, e pode ajustá-la ao longo da série conforme a evolução de cada paciente. Você encontra um panorama mais amplo do procedimento em si no texto sobre o que é a eletroconvulsoterapia e como ela funciona.

Como os efeitos são acompanhados e reduzidos na prática

Tratamento sério é aquele em que o efeito colateral é previsto, medido e conversado, não descoberto pelo paciente sozinho. Na prática moderna, a série de ECT é acompanhada de perto. Avalia-se o estado cognitivo ao longo das semanas, ajusta-se a frequência das aplicações, e a técnica pode ser modificada se os efeitos sobre a memória se mostrarem incômodos. A decisão de continuar, espaçar ou encerrar a série é sempre médica e baseada na relação entre benefício e efeito colateral em cada caso.

Esse acompanhamento também serve para separar o que é efeito do tratamento do que é sintoma da própria depressão. Dificuldade de concentração e falhas de memória fazem parte de muitos quadros depressivos graves, e às vezes o que melhora com a ECT é justamente a cognição que a doença havia prejudicado. Distinguir uma coisa da outra exige avaliação clínica, e é parte do trabalho da equipe que conduz o procedimento.

Onde a infusão de cetamina IV entra nessa conversa

Ambiente clínico monitorado do Instituto Anchor, preparado para procedimentos conduzidos com acompanhamento médico.

Ambiente monitorado, conduzido com acompanhamento de psiquiatra e anestesiologista, no Instituto Anchor.

Quem pesquisa efeitos colaterais da ECT costuma estar diante de um quadro de difícil controle, que não respondeu como se esperava aos tratamentos já tentados. Nesse cenário, faz sentido conhecer o repertório disponível, e a infusão intravenosa de cetamina é uma das opções que ampliaram esse repertório nos últimos anos. O perfil de efeitos é diferente. A cetamina IV, também escrita como ketamina, é administrada com o paciente consciente, sem anestesia geral, em ambiente monitorado, e não tem a memória como preocupação central da mesma forma que a ECT.

Sobre eficácia comparada, existe um dado que merece contexto. Um ensaio clínico randomizado publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, conhecido como ELEKT-D, comparou cetamina e ECT em pacientes com depressão resistente ao tratamento sem sintomas psicóticos, e concluiu que a cetamina não foi inferior à ECT nesse grupo específico. A leitura responsável não é que uma substitui a outra, e sim que, para parte dos pacientes, a infusão de cetamina pode ser uma alternativa menos invasiva a ser avaliada por médico, em casos selecionados. No Instituto Anchor, esse protocolo é conduzido em ambiente monitorado, com psiquiatra e anestesiologista, sob indicação médica individualizada, e você encontra os detalhes na página de tratamentos e no texto sobre as diferenças entre a ECT e a cetamina IV. Sobre a segurança do procedimento em si, reuni os cuidados no artigo sobre os cuidados do protocolo de infusão de cetamina.

Perguntas frequentes sobre os efeitos colaterais da ECT

A ECT causa perda de memória permanente?

Na maioria dos casos, não. A metanálise de Semkovska e McLoughlin mostrou recuperação da maior parte das funções cognitivas nas semanas após o tratamento. O ponto que exige atenção é a memória autobiográfica de eventos próximos às sessões, que pode permanecer alterada por mais tempo em parte dos pacientes. A extensão desse efeito varia conforme a técnica empregada e a própria pessoa.

Os efeitos colaterais aparecem em todas as sessões?

A confusão logo após a aplicação é comum, sobretudo no início da série, e tende a se acomodar com o tempo. Os efeitos físicos, como dor de cabeça e dor muscular, quando aparecem, costumam ser passageiros. A intensidade não é fixa e é acompanhada de perto ao longo do tratamento.

É possível reduzir os efeitos sobre a memória?

Sim, e é justamente o que a técnica moderna busca. Pulsos mais breves e o posicionamento unilateral direito dos eletrodos estão associados a menor impacto cognitivo, e o médico ajusta a técnica conforme a resposta de cada paciente. Nenhum ajuste elimina totalmente o risco, mas o objetivo é sempre buscar a relação mais favorável entre benefício e efeito colateral.

Em resumo

Os efeitos colaterais da eletroconvulsoterapia existem e não devem ser escondidos, e ao mesmo tempo são bem menores e mais bem controlados do que a fama histórica do tratamento sugere. A confusão logo após a sessão e os efeitos físicos leves costumam ser passageiros. O efeito sobre a memória autobiográfica é o que exige mais atenção e conversa franca com o médico. Para parte dos quadros de difícil controle, abordagens como a infusão de cetamina IV ampliaram as opções, com um perfil de efeitos distinto, e a escolha entre uma e outra é sempre uma decisão clínica e individual. Se a sua busca chegou até aqui, esse contexto costuma fazer parte de um terreno mais amplo, o da depressão refratária e suas opções de tratamento.

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa. Não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento médico. Se você reconhece sintomas descritos aqui, procure um profissional de saúde mental.

Se você convive com um quadro que não respondeu aos tratamentos já tentados, conversar com um médico que possa avaliar o seu caso de forma individualizada é o passo mais seguro. A equipe do Instituto Anchor, em Uberlândia/MG, está disponível para uma avaliação médica.

Dr. João Victor, médico psiquiatra (CRM-MG 71304 · RQE 59605) — Instituto Anchor, Uberlândia/MG.